Sindrome de Kundalini

Nos últimos anos, vários pesquisadores têm-se preocupado em desvendar os estados modificados de consciência, através dos efeitos das práticas meditativas, experiências místicas ou religiosas e as suas relações com a saúde mental.
Encontrando-se associados ao despertar da consciência muitos sintomas ainda hoje confundíveis com patologias metais, procura-se entender o Síndroma da Kundalini neste contexto.
Maslow (1959) aponta para uma maior frequência no futuro de tal fenómeno no mundo.
Sri Swami Shivananda, Kundalini yoga (1932, p. 21) afirma:
“…Kundalini significa enroscado, a sua forma é semelhante a uma serpente enroscada, que passa por os seis centros de energia espiritual até o chacra da coroa, através das várias práticas ióguicas e assim alcançar um estado de realização do ser…”
Em 1932, num seminário sobre Kundalini, C. G. Jung e seus contemporâneos acreditavam que essa força rara vezes era verificada no Ocidente, no entanto, afirma que o fenómeno da Kundalini não fosse totalmente desconhecido na Europa pré-moderna.
Sannella (1992) deu a esse fenómeno o nome genérico de «fisio-kundaliní». Sanella refere que uma grande quantidade de transtornos emocionais e físicos considerados como problemas somáticos e distúrbios mentais são na realidade manifestações de uma transformação psicológica e espiritual que acompanha o despertar da Kundalini.
Existe um número de autores e pesquisadores que vem mencionando o Síndrome da Kundalini, por exemplo:
Shivananda, (1932); Jung, (1932); Maslow, (1959); Bentov, (1990); Paulson (1991); Krishna, (1992); Sannella, (1992).
Caracterizam-se em três aspectos.
Shivananda (1932) e Krishna, (1992) experimentaram o fe-nómeno da Kundalini descrevendo as suas experiencias e técnicas. Paulson (1991) tem uma visão mais terapêutica onde desenvolve técnicas de diagnóstico baseado nas medições dos chacras em polegadas e por sua vez promove exercícios de correcção. A psiquiatria e a psicologia transpessoal buscam entender o que produz os sintomas, como decorre o processo e possíveis tratamentos (Bentov, 1990; Sannella, 1992).
O presente projecto de investigação pretende contribuir para a consciencialização dos profissionais ligados à área da saúde sobre este síndroma e as implicações na saúde mental. Assim o âmago do projecto é averiguar se a Homeopatia pode ajudar na síndrome da Kundalini, através de um caso.
Primeiro, através de recolha de sintomas enquadrado o individuo como um todo, reportorizando e com auxilio ao método da sensação chegar ao remédio mais exacto simillium,
relacionando com os sinais e sintomas manifestos por este síndrome. Será feito um acompanhamento por meio ano, através de consultas periódicas e com a aplicação da escala da avaliação da qualidade de vida.
O contributo do projecto permite aprofundar este síndrome e propor respostas de tratamento mais naturais, pois Sannella (1992) observou que cada vez mais as pessoas vivenciam este fenómeno. Ele sugeriu uma causa significativa. “As pessoas vivenciam fenómenos da kundalini com mais frequência porque elas estão mais envolvidas em disciplinas e estilos de vida favoráveis à transformação psicoespiritual”.
Mencionava que o “despertar da kundalini ocorre hoje com maior frequência, com e sem treino.”
A limitação deste projecto é a inexistência de casos enquadrados devidamente, a maioria dos estudos feitos foram em praticantes de meditação, outra questão a colocar será a experiencia do despertar da Kundalini, vivenciada por homens e mulheres de igual modo. Por outro lado a visão clássica e a ciência ajudam a enquadrar este síndrome numa visão mais ampla onde as terapias não convencionais podem também contribuir e favorecer o desenvolvimento de futuras abordagens homeopáticas relacionados com estados alterados de consciência ou na relação com outros temas abordados pela psicologia transpessoal (Maslow, 1993).
A pertinência da investigação procura abordar uma área pouco explorada no âmbito das terapias não convencionais, mas também de um maior interesse da Psicologia Transpessoal, através do estudo de um caso, com a aplicação da Homeopatia Clássica.
Fundamentação Teórica
Síndrome da Kundalini As primeiras referências históricas relativas a Kundalini fo-ram encontradas nas antigas escrituras da India, sendo provavelmente da época dos Vedas. No versículo 125 do déci-mo livro do Rig Veda, escrito há aproximadamente 3.500 anos, há uma referência da Kundalini como Vak “deidade da fala”, relacionando o poder da Kundalini com a capacidade de falar e escrever de forma sábia, por inspiração. O reco-nhecimento do processo da Kundalini não se restringiu aos Vedas sendo parte integrante dos ensinamentos do Budismo Tibetano, do Taoísmo Chinês, encontrando-se descrições semelhantes na tradição dos Kung do deserto do Kalahari, de certas tribos Ameríndias, Africanas e até, possivelmente, na antiga civilização Sumeriana (Krishna, 1992).
Swami Muktananda, Kundalini: The Secret of Life (1974, p. 9) afirma:
“….Kundalini é a energia suprema que move e anima todas as criaturas, do elefante à mais débil formiga. Ela entra em todas as criaturas e coisas que cria, assim como em cada uma delas, mas nunca perde sua identidade ou sua pureza imaculada … “
Sri Swami Shivananda, Kundalini yoga (1932, p. 23) afirma:
“…Quando se medita, se tem visões divinas, percebem-se aromas, gostos e contactos divinos, ouve-se sons internos, se recebe instruções de Deus, tudo indica que a kundalini Shathi despertou, esta deve ultra-passar os três obstáculos da mente é alcançar a felicidade eterna …”
A palavra sânscrita Kundalini significa “aquela que está enrolada”.
Sendo uma metáfora da serpente, é tida como um tipo de energia psicoespiritual, ou “energia da consciência”. De acordo com os princípios do Yoga, a Kundalini é uma energia espiritual que reside em todos nós (Boorstein, 1996).
A Kundalini é, segundo uma lenda Hindu, uma deusa, estan-do os Chakras centros de actividade receptora, assimiladora, e transmissora de energias vitais vinculados a essa divindade. São frequentemente representados como flores de lótus com número variado de pétalas, que se supõe corresponderem às diferentes energias associadas a cada cen-tro.
A Kundalini estaria alojada na base da espinha dorsal como uma serpente que dorme enrolada ao redor do primeiro chakra, tam-bém chamado de mula-dhara chakra, relacio-nado com a distribuição geral da força da vida e com o ele-mento terra Muladhara chakra. Segundo conta a lenda, a deusa desperta, sobe chakra a chakra, do primeiro ao último no topo da cabeça e ainda além dele, dando origem a um estado místico de consciência, no qual toda a dualidade cessa.
A Kundalini passaria então do primeiro ao segundo chakra, também chamado de svadhisthana chakra, localizado na área genital e relacionado com o elemento água. O terceiro chakra, o manipura chakra, na região do umbigo, é conside-rado como um segundo lugar de repouso da Kundalini ador-mecida. Está relacionado com o elemento fogo. O quarto chakra, o anahata chakra, é conhecido como o lótus do cora-ção, vinculado ao amor relacionado com o elemento ar. O quinto chakra situa-se na região da garganta e é denominadode vishuddhana chakra centro da pureza. Acredita-se estar relacionado com o elemento éter.
O sexto chakra, representado por um lótus de duas pétalas, localizado na fronte entre sobrancelhas, denominado ajna chakra é também conhecido como terceiro olho e estaria associado à mente, á realização do ser, o início do Samadhi. O sétimo chakra, o sahasrara chakra ou chakra de mil pétalas está localizado no topo da cabeça, sendo representativo da experiência de luz e felicidade suprema. A passagem da Kundalini por cada centro energético produz o despertar da região correspondente, gerando uma sintomatologia característica e iniciando um processo de iluminação (Shivananda, 1932; Motoyama, 1993).
Desde a antiguidade aos tempos actuais que o fenómeno da Kundalini tem acompanhado o homem, sendo a descrição do processo idêntico através do tempo.
Definição da Fisiokundalini O termo Fisiokundalini foi proposto pelo psiquiatra e oftal-mologista Lee Sanella para designar os aspectos fisiológicos e psicológicos do despertar da Kundalini, que podem ser explicados por mecanismos fisiológicos (Grof, & Grof, 1992).
Sannella (1992) deu a esse fenómeno o nome genérico de «fisio-kundaliní» Sanella refere que uma grande quantidade de transtornos emocionais e físicos considerados como pro-blemas somáticos e distúrbios mentais são na realidade ma-nifestações de uma transformação psicológica e espiritual que acompanha o despertar da Kundalini.
Bentov (1990) desenvolveu um modelo que descreve as mudanças fisiológicas que ocorrem no despertar da Kundalini e que não requerem uma explicação que apele a forças supranormais, mostrando a pouca eficácia da medicação alopática e que na maioria das vezes até pioraram os sintomas.
Admitindo que exista tal fenómeno, podemos tentar percebê-lo. Nomeadamente, quais as suas características? De que modo se manifesta? Existe uma forma mais favorável/saudável de efectuar o seu despertar? Levará este a manifestações de poderes psíquicos? De que maneira a síndrome de Fisiokundalini se pode confundir com processos patológi-cos? De que outras formas pode ser entendido o processo da Kundalini? Poderá ser considerado um estado modifica-do de consciência e existirá relação com o desenvolvimento espiritual? Pode a kundalini manifestar-se espontaneamente? E que práticas facilitam esse processo? Existem vantagens e desvantagens no despertar dessa energia?
O mundo Ocidental através de Shivananda (1932), médico e líder espiritual hindu e Krishna (1992), natural de Caxemira, obteve maiores conhecimentos sobre o processo da Kundalini. Também foi denominada como fogo serpentino, uma força evolutiva básica individual, sendo todas as energias do corpo e da mente manifestações dessa energia primordial, pois ambos passaram por a experiência do despertar da Kundalini.
Os Alquimistas em busca da Opus, Pedra Filosofal, provavel-mente não ignoravam essa força, por outro lado, também será de assumir que os místi-cos da Cristandade Antiga e medieval, ou os magos, os Druidas, conheciam o despertar da Kundalini. Poder-se-ia admitir que da-vam às suas buscas espirituais nomes distintos, podendo, no entanto, reconhecer- se algumas semelhanças com o fenómeno de Fisiokun-dalini (Krishna, 1992).
O próprio Jung definiu Kundalini como “um processo autónomo que brota do inconsciente e que aparentemente utiliza o indivíduo como seu veículo”. Jung relata uma alegoria sobre um monge medieval que empreendeu uma viagem imaginária numa floresta selvagem e desconhecida onde se perdera. Enquanto tentava reconstituir o rumo de suas pega-das, encontrou um feroz dragão a barrar-lhe o caminho. Jung compara o dragão à Kundalini, a força que em Psicologia obriga a pessoa a continuar com a sua maior aventura – a aventura do conhecimento de si mesma (Sanella, 1992).
Segundo Sanella (1992), um dos grandes pesquisadores da matéria, se o fenómeno da Kundalini era raro na época de Jung, hoje já não se pode dizer o mesmo. Uma explicação para isto residiria no facto de as pessoas, nos nossos dias, falarem mais livremente sobre experiências semelhantes ao despertar de Kundalini ou de se debruçarem, com maior frequência, sobre disciplinas e estilos de vida condizentes com a transformação psicoespiritual.
A busca de métodos para alcançar estados modificados de consciência tem sido cada vez mais desenvolvida e aceite desde as experiências causadas pelo L.S.D. nos anos 60, aos praticantes de meditação transcendental, às diferentes esco-las do Budismo, Yoga, transe mediúnico, respiração holotrópica, cura psíquica e outras. E dentro desse contexto surgem as experiências do despertar de Kundalini (Grof, 2002).
Ainda segundo Sanella (1992), alguns sociólogos falam de um renascimento do Ocultismo nos nossos tempos ou de um encontro do Oriente com o Ocidente, através dessas disciplinas. Seria essa “miscigenação cultural” um dos factores que contribuem para a frequência de fenómenos da Kundalini no Ocidente.
A própria ciência tem alargando os campos de investigação de modo a compreender o ser humano, os pesquisadores tem procurado entender as causas e colocando questões sobre o que é a Kundalini.
Fonte: Boletim Holístico nº 8 da APTHI